domingo, 14 de março de 2010

A Carta



Durante alguns meses mantive em meio ao caos de minha escrivaninha a tal carta. Em envelope azul, caligrafia bem cuidada, diariamente lia o nome Maria Luísa e, logo abaixo, como o mesmo esmero, o endereço onde eu morava. Rua Ourém tal, tal, tal. Ao lado um selo carimbado pela Agência Centro dos Correios no Recife e que custara 65 centavos. Decorridos alguns dias da chegada do envelope, perguntei aos vizinhos se eles conheciam alguém que correspondesse àquele nome sem sobrenome; alguém que houvesse habitado o meu apartamento antes de mim, talvez.

Morava naquele apartamento havia pouco mais de quatro anos. Deveria exisitir alguém na vizinhança cujo nome fosse ao menos próximo ao da destinatária, argumentou um dia a minha namorada. Não encontrei sequer uma Maria entre nós. O mais próximo que cheguei foi a descoberta de uma Maryanne Lima, que envidentemente não era a moça da carta. Os vizinhos antigos também não se recordaram de ninguém com aquele nome. Meu apartamento, segundo vim a saber, sempre fora alugado por solteirões. Nenhuma mulher.

- Mas os rapazes que moraram aí sempre foram mais simpáticos e bonitos que o senhor – revelou-me uma moradora antiga do Edifício A., ela própria não muito simpática e bela.

Minha namorada, de qualquer modo, discordou da vizinha. Considerei devolver ao correio aquela carta, mas percebi que isso seria inútil. O nome do remetente estava ilegível, estranhamente borrado, num envelope que, no mais, permanecia imaculado. Justifiquei desta forma, para mim próprio, o fato de não ter me livrado de uma correspondência que não me dizia respeito.

Ficou aquele pedaço de papel misturado a outros muitos que perambulam no meu escritório.

Mas não o perdi de vista.

Convenci-me, não sei bem como, ser a tal destinatária uma mulher jovem. E o simples fato de chegar a essa conclusão, algo como os rudimentos de uma identidade, já era um indício claro de que eu desenvolvera algum tipo de ligação com aquele envelope lacrado, endereçado ao apartamento que ocupava. Ao apartamento, não. A alguém, a uma mulher, talvez jovem, a Maria Luísa. Mas o erro que eu cometia era sintomático, algo já próximo a um artifício retórico, argumentou na ocasião minha namorada.

A partir do terceiro mês, passei a ter sonhos regulares com uma mulher que eu surpreendia em meu banheiro, ou lendo os livros desavergonhados que tenho e também leio, ou ainda abrindo a porta da geladeira, de onde pegava uma fruta. Realizava esses gestos comezinhos sempre usando uma de minhas camisetas, e mais nada, à vontade sempre, como eu nunca consegui estar em meu próprio lar. Em todas essas circunstâncias em que acreditava surpreendê-la, ela sempre me olhava com uma familiaridade desconcertante, sorria um sorriso bom e eu acordava. Nestas ocasiões, sempre me acometia a mesma constatação absurda:

- Eita! Esqueci de perguntar-lhe como ela é.

De fato, era-me impossível lembrar da aparência da tal mulher, embora não tivesse problema em recordar seus gestos, atitudes, jeito de caminhar e pegar coisas. Não posso dizer que a recorrência desses sonhos me perturbasse. Nem mesmo o tal lapso de curiosidade me incomodava muito. Não deixava de ser estranho, todavia, aquela sensação de estar me tornando íntimo de alguém que eu não conhecia, que eu sequer ousava enxergar nos meus sonhos.

Foi então que decidi abrir a carta.

Isso me levou ainda algumas semanas. Confesso que o que menos me incomodava era o crime que iria cometer, abrir correspondência alheia. De certo modo, Maria Luisa - pois quem mais poderia ser a mulher de meus sonhos? - tornara-se íntima, a trafegar pelo meu apartamento apenas de camiseta, a comer as maçãs, bananas que eu sonhava, a banhar-se nas águas que eu imaginava. Abri a carta muito lentamente, milímetros diários que finalmente expuseram uma única folha de papel, azul como o envelope.

A carta dizia:

“Querido,

Um homem deve ser rápido e corajoso em tudo na vida. Mesmo ao decidir abrir uma carta que aparentemente não lhe diz respeito, deve fazê-lo sem vacilar. Gosto muitíssimo de você, mas não posso pensar numa vida em comum com um homem que levará, como sei que você levará, semanas para realizar um desejo tão básico.

Adeus, seu cagão!”


Bem, eu levei meses para abrir.

E assinava: Fulana de Tal. E Fulana de Tal era o nome de minha namorada. Como naquela peça de Nelson Rodrigues, ela fugira com o amante paraguaio, que não havia entrado ainda na estória.

9 comentários:

Rafiusk Positividade disse...

Eita! De um jeito ou de outro eu acabo passando por aqui para ler as novidades. Mesmo que anualmente! Mas em toda visita meu receio é o mesmo: o quanto da verdade inspiradora tem esses contos. No mais, saudades, meu velho.

Zé da Goma disse...

Grande Rafão! Você é bem-vindo quando chegar, seja anualmente ou de hora em hora. Espero que os seus projetos estejam sendo tocados direitinho, com a benção e proteção dos Orixás. Quanto à sua dúvida, é um prazer não as dirimir, aliás esse é um dos prazeres da brincadeira. Réré. Abração.

Anônimo disse...

muio bom kkkkk

mundo juridico disse...

muito bom(rindo) gostei da parte:seu cagão kkkkkkkkk

Zé da Goma disse...

Gracias.

Fernando disse...

Jonatas:
Li seu conto com grande prazer. É um envolvente exercício de imaginação ficcional acrescido de um desfecho admirável.
Fernando.

Zé da Goma disse...

Eita, Fernando! Fico imensamente feliz com o seu comentário, embora veja nele o carinho da amizade. Muito obrigado.

Raquel Firmino disse...

Ai, ai, saudades... do Recife e das aulas que frequentei! Sociologia da Modernidade (inesquecível!). Seus contos tão surpreendentes quanto a forma de você expor as suas aulas. "A carta" me chamou atenção pela garantia constitucional da inviolabilidade da correspondência, uma vez que graduanda em Direito,agora, mas as bases sociológicas que construir na UFPE continuam a me influenciar. É por isso que passei por aqui para dizer olá, com muitas saudades...

Zé da Goma disse...

Raquel! Aquela moça talentosa que passou um tempo sem saber por onde seguir... Agora, formada em Direito. Que bom ter notícias suas! Quando tiver um tempinho, apareça para falar com os amigos antigos. Forte abraço.

Jonatas