
Nada lembro de minha infância, exceto do cheiro doce e bruto do rio. Devo ter sido desalojado de suas margens durante uma dessas enchentes que retornavam a cidade ao seu útero de águas barrrentas, ao odor de folhas apodrecidas. Só consigo recordar de mim já como habitante daquele quintal espaçoso, com suas enormes mangueiras, jambeiros, jaqueiras em cujas copas os sabiás cantavam e os sanhaçus exibiam sua plumagem festiva. Órfão, ou abandonado, encontrei abrigo e alimentação entre as fruteiras daquele amplo pomar.
Ali me acomodei como pude sob os escombros de enormes máquinas destroçadas que ficaram para trás sem que ninguém viesse reivindicar a sua propriedade. Talvez imprestáveis para os outros. Abriguei-me ali como pude, comi as frutas que tinha à minha disposição, construí alguns túneis onde pudesse me proteger do acaso e a vida não era má.
Evitei apenas me aproximar da grande casa que se impunha no fundo do quintal. Impenetrável. Cerrada. Morta, com suas enormes janelas azuis, seu teto precisando de reparos e seus ruídos noturnos.
Uma madrugada, porém, fui acordado pelos gemidos do velho portão de ferro que se abria. Através dele um burrico passou, com seu passo miúdo e ritmado, e atrelado a este uma carroça carregando uma mulher, uma criança e alguma, pouca mobília. Havia também o carroceiro em meio àquela gente e objetos, mas tão logo ele se desembaraçou de um guarda-roupa pequeno, uma mesa, duas camas e algumas cadeiras, retirou-se levando consigo seu burro e a carroça. Cuidei de não ser percebido e por uns dois dias observei os novos habitantes acomodarem-se no casarão. Que águas os teriam trazido até ali?
No terceiro ou quarto dia fui descoberto em meu abrigo. O garoto foi quem primeiro me viu. Pareceu assustar-se muito com minha presença pois correu muito excitado para dentro da casa, para voltar logo em seguida acompanhado da mãe e esta de uma vassoura.
- Ali, debaixo do torno mecânico.
- Deixe-o, não há de fazer mal a você. Coitado, está magro.
Nunca havia percebido minha magreza e a fome que tinha. O que é estranho de se constatar. Passei o resto do dia examinando os meus ossos, andando um tanto aflito para frente e recuando, ansioso com aquela descoberta, com aquele diagnóstico. Fiquei assim outros tantos dias, olhando para o tempo com os meus olhos saltados, comendo uma ou outra manga, um ou outro jambo.
Numa manhã, ao acordar, descobri em frente a mim um prato com inhame e leite. Da janela da sua casa a mulher me olhava e sorriu quando aceitei a sua oferta. Comi com gosto o quitute e no meu íntimo agradeci uma bondade tão inesperada. A gentileza se repetiu com a regularidade do cuidado. Após algumas semanas, decidi me aproximar da casa e agradecer àquela mulher que eu via apenas à distância.
E era bela como nenhum sanhaçu, como não cantam os sabiás, nem lampejam os colibris. E fiquei paralisado ali, em frente à sua porta sem saber o que dizer. Recuei e voltei para o meu abrigo. Mas escutei ainda sua voz grave e terna dizer:
- Deixe-o, ele ainda está assustado. Mas a comida está lhe fazendo bem.
Após uma semana de tentativas frustradas finalmente consegui encarar minha benemérita. E que pernas, que coxas, que seios, meu Deus, que olhos tinha aquela mulher. Ela então estendeu a mão em minha direção. E eu estendi para ela a minha pinça num gesto de reconhecimento e de cortesia. Foi então que sua mão fez em torno de mim um movimento rápido, preciso e inesperado. Com a ponta de seus dedos graciosos prendeu firmemente minha carapaça, levou-me até uma pia, escovou-me, antes de me mergulhar numa panela. E a última coisa que escutei foi:
- Hoje teremos pirão de guaiamum no almoço!
- Ôba! A patola é minha!
Fui coberto por tomate, cebola, cebolinha, sal e alho. Tudo picadinho, com muita água e sal.
2 comentários:
Muito bom! Texto envolvente e muito bem escrito. Engano-me ou tem um 'que' de inspiração em Manoel de Barros? Por sinal, você anda numa fase extremamente produtiva. Acadêmica e literariamente. Parabéns!
Caro(a),
Muito obrigado. É uma honra que um texto meu recorde um poeta de quem tanto gosto - agora mesmo, ele está na minha cabeceira. Mas não houve intenção. Abraço, Jonatas
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