sábado, 13 de março de 2010

Oito deitado v. 2.0



Minha avó, já beirando os oitenta anos, rosto de maracujá de gaveta, olhos esbranquiçados pela idade e pela catarata, peito ampliado pelas terríveis crueldades de que era capaz, olhou-me, com os excelentes ouvidos que tinha, subir numa goiabeira e ali permanecer por toda a manhã.

Pediu notícias do mundo. Porém, eu nada disse.

Deixei que as coisas ao meu redor se mirassem em minha pele, retina, cabelos, nos calções que usava. Eu sequer contemplava. Confundia-me antes com as coisas ao meu redor. Vento vindo do rio, cheiro de mangue, grito de mulher, correria da meninada na Rua da Saúde, a poeira subindo na Rua General Mena Barreto, as folhas, os vários tons de amarelo dos frutos, o sol intenso, um ou outro passarinho, e coisinhas assim, em cujo emaranhado eu me escondia. Subi na goiabeira para ser folha, fruto e bico de passarinho.

Minha avó apenas conferia o rastro sonoro de minha existência semi-alada, a macaquear uma ou outra manobra segura entre os galhos da fruteira. Eu ainda não havia descoberto o silêncio.

Preferia dizer de mim, mas não para ela, pelos rastros que deixava no quintal: montículos róseos de sementes quase mastigadas, cascas, uns galhinhos muito verdes, que sem querer eu arrancava, e minha sombra que mudava de lugar e forma com as horas do dia. De mim, sabiam as galinhas, a manducar o que eu cuspia e a se proteger do sol dentro do enorme caranguejo que eu projetava sobre o barro vermelho.

Minha avó pediu-me novas das cores dos pássaros, que ela apenas ouvia, porém eu nada disse. Um que estava eu com o mundo.

- Aaaahhh! PESTE! Um dia estarás tão só que precisarás me inventar!

E o mundo transcorria em mim - como correm muitos rios em um rio, com seus sons e tons e cheiros -, indiferente à minha sina.

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