Não é da ordem do dizer e, mesmo assim, digo.
Que o corpo jovem da bailarina segue passo a passo por um campo coberto de neve – manto branco sob o qual o musgo e outra paisagem aguardam. Seus dedos enregelados tocam um velho acordeão e de sua boca uma canção vem com o vento. Seu corpo é precário e notícias distantes – um coelho foge, um mendigo já não pode resistir, uma árvore sacudida pelo inverno - sopram glaciais por entre a trama de seu vestido - absurdamente fino para tanto frio. Seja. Que ela segue mesmo assim. Sua voz não treme, nem procura se impor sobre o branco imenso onde seus pés quase nus afundam. Que assim, súbito, a dança começa. Não porque o corpo quer voar, mas por aceitar sua gravidade. E o campo é amplo e o frio intenso e a bailarina dança para passar como o tempo.
5 comentários:
Que ela não passe, essa bailarina. Que o tempo a aguarde - e guarde. Que ela reaquece e a paisagem sob a neve o sabe.
Bonito, seu não manuscrito.
Pois, muito obrigado.
O degelo sempre chega. A bailarina é signo da primavera.
Mas aqui não se dança apenas o novo, mas a passagem.
E é de passagem de que falo... De degelo e de primavera - passagem de estação.
Postar um comentário