Ai, minha amada, deixe-me falar do amor urgente e sem medida, embriagado na luz vertical do meio dia, bêbado quando todos trabalham, gargalhando em meio ao funeral, ébrio e reto como o desejo.
E, no entanto, esse amor não é meu, velho já, dissimulando o tremor de agarrar com tanta força o oco dos dias. Tomo-o emprestado.
Ai, minha amada, deixe-me falar de um amor que cancela todos os vôos, da vida em estado de sítio, da emergência sem amanhã e sem demora, da carne que pulsa dentro e fora da poesia – como um lagarto capaz de paralisar a luz do sol que lhe queima e aquece. Sonhemos, por agora, com a coragem e generosidade de poder simplesmente dizer: de lado a felicidade; não será a vida uma dádiva suficiente? Ai amada, deixe-me falar da vertigem e beleza em que o amor sempre se precipita.
Porém, esse amor não é meu, vaso tenso, copo vazio, esperando indefinidamente o gozo dos vinhos que virão, recolhendo a migalha dos bons amores vãos. Compro-o junto com a pasta de dentes e o sabão. Compro-o a prestação.
Estrela, estrela, quem te reconhecerá minha, o peito finalmente aberto, na explosão em que tudo se consumirá?
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