Do espaço cósmico vem essa luz mirrada e fria. Escorre lenta e desde sempre, iluminando-me e ao homem de neanderthal, tocando as retinas infeccionadas de Alexandre e depois as de Aníbal - que olhava o infinito e mijava sobre a areia morna enquanto calculava provisões, deslocamentos, batalhas.
Essa cintilação persistente pulsa o breu, moldura de tudo que brilha, nos olhos de um escravo núbio, cruelmente chicoteado. Saberás por acaso sua história? Sem distinção, aquele brilho lambe o sangue coagulado sobre o corpo quase morto e as lembranças de sua alma. Como terá se chamado? Sei apenas que em sua terra natal, entre o deserto e o rio, seus muitos irmãos erguem-se também em direção a esse brilho quebradiço e a essa agonia.
Fogueiras, urina, labaredas, promessas de vitória e de retorno, tudo é guardado nessa cintilação branca e inatingível. Com amor e com a devoção fria de um fogo distante. Incansavelmente e sem alvoroço. Veloz, silencioso, frio e eterno.
Numa noite qualquer, tu também olharás esse pulsar de cristal e agonia e pensarás: em algum lugar, no distante dessa luz mortiça, meus filhos e os irmãos do escravo núbio, os exércitos de Alexandre e de Aníbal olham-se nos olhos. E seguirão a se mirar nas retinas dessa dor infinita e cósmica que lateja. Haja o que houver.
A tudo guardará a distância dessa frieza que goteja.
Pois seu brilho triste e cristalino é apenas a condensação do desespero que sempre passa.
4 comentários:
Luz cósmica. Divina, neutra ou diabólica.
Recusa, poeta, a placidez triste a que todos condena sua devoção que esfria. Aníbal, Alexandre, filhos e escravos. Soldados esgotados.
Que ela vença no infinito, tão muda, distante e fria. Temos o pulsar sonoro e próximo. Alegria finita e morna do amor em agonia.
Obrigado pela visita e comentário, Anônimo.
Gosto do filme que teu texto põe a rodar na cabeça. Vejo todos e tudo de que você fala. Mas a tal luz parece o contra'rio do que dizes no final: inspira-me um desespero que não passa. E frio como Tânatos!
Achei legal.
Entendo, Tâmara. Mas essa luz cotidiana e disponível (quase negligenciada com relação à luminosidade da lua) de que falo nos recolhe a todos como companheiros de viagem: humanóides que morreram sem deixar traço, generais gregos e romanos, camponeses medievais etc. A irmandade da passagem diante de algo que passará com uma lentidão quase incompreensível.Não é das coisas mais serenas que escrevi. Como, de resto, as últimas coisas... Obrigado pelo comentário.
Postar um comentário