O Ferro Velho de Zé da Goma
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Nota de falecimento
Ontem à noite, procurando estrelas em um céu nublado, Zé abriu um largo sorriso diante de uma estrela cadente que rasgava o espaço em direção a essa nossa terra. Seu sorriso ampliou-se ainda mais ao perceber que o meteorito vinha em sua direção. "Alexandres, Alcebíades, meus irmãos, aqui estou!", teria dito.
Tivesse assistido ao último filme de Lars von Triers, algumas precauções haveria de tomar. Porém, não foi isso que ocorreu. A estrela cadente arrancou-lhe os dois braços, chamuscou horrivelmente o lado esquerdo do peito, levando para dentro da terra também um pé esquerdo e seu tamanco. Em torno do buraco que se formou com o impacto vê-se uma massa compacta e ensaguentada.
Tive a oportunidade de tentar socorrer o meu amigo recente. Levei o que sobrou dele ao hospital, onde o deixei desenganado pelos médicos. Há pouco, uma enfermeira veio até mim e transmitiu com emoção burocrática suas últimas palavras:
"Horror! Horror! E SAMBA!"
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Pulsar
Essa cintilação persistente pulsa o breu, moldura de tudo que brilha, nos olhos de um escravo núbio, cruelmente chicoteado. Saberás por acaso sua história? Sem distinção, aquele brilho lambe o sangue coagulado sobre o corpo quase morto e as lembranças de sua alma. Como terá se chamado? Sei apenas que em sua terra natal, entre o deserto e o rio, seus muitos irmãos erguem-se também em direção a esse brilho quebradiço e a essa agonia.
Fogueiras, urina, labaredas, promessas de vitória e de retorno, tudo é guardado nessa cintilação branca e inatingível. Com amor e com a devoção fria de um fogo distante. Incansavelmente e sem alvoroço. Veloz, silencioso, frio e eterno.
Numa noite qualquer, tu também olharás esse pulsar de cristal e agonia e pensarás: em algum lugar, no distante dessa luz mortiça, meus filhos e os irmãos do escravo núbio, os exércitos de Alexandre e de Aníbal olham-se nos olhos. E seguirão a se mirar nas retinas dessa dor infinita e cósmica que lateja. Haja o que houver.
A tudo guardará a distância dessa frieza que goteja.
Pois seu brilho triste e cristalino é apenas a condensação do desespero que sempre passa.
sábado, 30 de julho de 2011
O poeta
Ai, minha amada, deixe-me falar do amor urgente e sem medida, embriagado na luz vertical do meio dia, bêbado quando todos trabalham, gargalhando em meio ao funeral, ébrio e reto como o desejo.
E, no entanto, esse amor não é meu, velho já, dissimulando o tremor de agarrar com tanta força o oco dos dias. Tomo-o emprestado.
Ai, minha amada, deixe-me falar de um amor que cancela todos os vôos, da vida em estado de sítio, da emergência sem amanhã e sem demora, da carne que pulsa dentro e fora da poesia – como um lagarto capaz de paralisar a luz do sol que lhe queima e aquece. Sonhemos, por agora, com a coragem e generosidade de poder simplesmente dizer: de lado a felicidade; não será a vida uma dádiva suficiente? Ai amada, deixe-me falar da vertigem e beleza em que o amor sempre se precipita.
Porém, esse amor não é meu, vaso tenso, copo vazio, esperando indefinidamente o gozo dos vinhos que virão, recolhendo a migalha dos bons amores vãos. Compro-o junto com a pasta de dentes e o sabão. Compro-o a prestação.
Estrela, estrela, quem te reconhecerá minha, o peito finalmente aberto, na explosão em que tudo se consumirá?
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Pichação
Sonhei contigo, fantasma, e não deveria. O que dizer, agora, a noite já em agonia? A Deus nosso Senhor decerto praz fazer de uns gente, outros concriz. E a mim, não distinguir por onde caminho. Se ouço vozes humanas ou trinos de passarinho.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Uma foto
- Mas onde exatamente tal eco e tremor?
Segue por sobre o que permanece.
- Mas quando quando essa dobra?
Renova-se naquilo que lentamente empalidece.
- Imagem em fuga que conduz para dentro do olho.
Eis a foto acendendo a pira do tempo.
Revelar que não cessa; hemorragia que não estanca.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Kazuo
Em volta de uma flor de pano, suas mãos quase tremem.
- Considere a vida que explode em cor e logo em palidez.
Tudo que é frágil dança, queima luz adentro.
domingo, 10 de abril de 2011
Pina
Não é da ordem do dizer e, mesmo assim, digo.
Que o corpo jovem da bailarina segue passo a passo por um campo coberto de neve – manto branco sob o qual o musgo e outra paisagem aguardam. Seus dedos enregelados tocam um velho acordeão e de sua boca uma canção vem com o vento. Seu corpo é precário e notícias distantes – um coelho foge, um mendigo já não pode resistir, uma árvore sacudida pelo inverno - sopram glaciais por entre a trama de seu vestido - absurdamente fino para tanto frio. Seja. Que ela segue mesmo assim. Sua voz não treme, nem procura se impor sobre o branco imenso onde seus pés quase nus afundam. Que assim, súbito, a dança começa. Não porque o corpo quer voar, mas por aceitar sua gravidade. E o campo é amplo e o frio intenso e a bailarina dança para passar como o tempo.
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Dona Virgínia
Dentro de tudo, no cheio do mundo, a jóia mais preta, a me chamar inteiro, gravidade que habita o coração de todo homem bom, língua que lambe toda luz.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
domingo, 19 de setembro de 2010
Crônica Suburbana

Há mais ou menos três semanas, a imagem do homem morto, sob o sol escaldante daquela rua sem árvores na Iputinga, retorna - ela vem até mim precisamente nos momentos do dia em que o tempo faz uma concha. Dizer “mais ou menos três semanas” não é tanto um registro da dureza do meu coração, remetido, à minha revelia, àquele estrangeiro que fala incerto da morte de sua mãe, ao filósofo iluminista que titubeia diante do número de seus filhos mortos, aos olhos de Kafka a flanar distraidamente pelo quarto de um Gregor Samsa transformado em enorme inseto. É que o tempo, onde realmente importa, resiste ao calendário. E, no entanto, agora me lembro, foi no dia 6 de setembro em que vi o saco de acúcar sobre o corpo de um defunto negro.
Não o cheguei a ver propriamente e aqui confesso: sou tímido diante da morte. A imagem que me acompanha é parcialmente imaginada, portanto. Tomei conhecimento do ocorrido pela boca de meu pai, que eu visitava, e pela narrativa curta do Pinto, que encontrei por acaso. "Passou dois dias internado no hospital e quando saiu voltou à rotina de sempre. Não sei como resistiu até hoje a tanta aguardente". Era um dos fregueses de seu Paulo - ele próprio meio enlouquecido pela fidelidade canina daqueles poucos à sua barraca. Disseram-me então o nome do morto, e este me soou familiar. Incertamente, fui tendo a confirmação de que se tratava de um colega de infância com quem jogara futebol nas tardes poeirentas de nosso bairro. Ali, no deserto. Preservou da meninice o rosto furioso, uma raiva profunda com a qual sempre me olhou, particularmente na idade adulta, quando o encontrava invariavelmente embriagado, entorpecido, maltratado pelo sol intenso e pela indiferença do mundo.
Uma ambulância do SAMU chegou para o socorrer; ainda a vi estacionada, mas já era caso de chamar o barqueiro, de entregar o corpo ao IML. Ficou jogado junto ao lixo durante toda a tarde e lá permaneceu quando me dirigi para casa, evitando olhar para o lado de onde o morto ex-posto pudesse me lançar pela última vez seus olhos de vidro. (Olhar sem intensidade, sem interioridade e que, no entanto, grita: "o mundo! o mundo!") Nesse intervalo de tempo, seus companheiros de sina e de cachaça sentaram-se juntinhos do outro lado da calçada, onde já havia sombra, e decidiram não beber o morto. Entre eles estava o irmão do defunto, soube pelo Pinto, mas não consegui de modo algum reconhecer naquela figura esquálida o colega de quebra-canelas.
Um outro bêbado, reunido ao grupo com certo atraso, estancou na esquina e com um gesto rápido de mão indicou que aquele jazia na poeira entre os dejetos já ia tarde. Ninguém chegou a sorrir da pantomima daquele retardatário. Eu, quase.
Foi assim. Nenhuma comoção se fez perceber sequer entre as crianças que rapidamente se interessaram por seus assuntos sempre urgentes. Apenas a abstinência de algumas horas dos bêbados enlutados dava um ar melancólico ao final da tarde.
Entre comentários curtos e conversas desviadas, chamou minha atenção um garoto de 15 anos, se muito, passeando um filhote de pitbull pelas ruas hoje asfaltadas onde já rolaram milhares de bolas de futebol. Meu pai o indicou com o queixo e certa displicência: “Não chega aos dezoito”. Olhei-o procurando uma explicação: “É o segurança da boca que o pai tem no final da rua. Vendem craque”. "E esse progresso já chegou aqui?" "Ma !..."
Aguardente, craque, que importa? Recordei então de teu corpo branco, teu sexo pequeno, tua bunda firme de negra e me agarrei a essas imagens como me agarro à lembrança da voz grave e tranquila de minha mãe, como me cubro com o humor de meu pai. Abracei tudo isso com força quase desesperada, ameaçando despedaçar esses fantasmas frágeis com meu tanto querer. Pedi, então, ao Deus que já não existia para o homem negro e morto que me guardasse com as minhas memórias boas, meus tesouros de criança grande, do granito impermeável e quente da vida.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
A dobra
O tempo reverbera e ecoa nas coisas paradas. Sobre a foto, emaranhada nas fibras de papel - que sei eu da tecitura da matéria? -, uma letra muito redonda me chama pelo primeiro nome e me fala de um amor tanto. Azul fino, frio sobre os tons sépia, desmaiado sobre o brilho do papel. Há ali uma assinatura, em torno dela uma mulher e segurando sua mão outras tantas.
[O que importa se impõe com o tempo.]
Ao fundo, no meio do pomar, o sol de outrora e de ouro teima e chama. E eu quase respondo ao eco dessa luz que me aguarda. Por dentro das notas da música antiga, quase acaricio o zumbido úmido por onde os besouros deslizaram suas muitas cores. Na companhia das formigas, invocando a chuva, dentro deste que cintila sob meus olhos, quase danço em quintais ainda mais remotos - com seus gritos idos, suas mulheres sorridentes, o cheiro bom do almoço pronto e posto, crianças fazendo algazarra e um burrico que escoiceia.
Quintais que chamam quintais que chamam quintais que me chamam.
Há coisas assim: onde o tempo faz festa e uma e outra dobra sobre si.
domingo, 1 de agosto de 2010
O Cão sem Plumas
Por isso também dele se diz dele ser o primata enlouquecido, aquele que pinta cavernas, faz simulacros do mundo real. Aqui também teríamos uma definição negativa: aquele a quem falta o tino, o desviante. Isso diz Bataille, num pequeno livro sobre as pinturas rupestres nas cavernas de Lascaux. Para ele a loucura da arte é o dado decisivo de nossa humanização - e não a técnica como supunha Hegel. O ser da falta é também o das possibilidades infinitas.
Acho que é uma definição antropológica, ou ao menos gosto de pensar que seja assim, que João Cabral tem em mente quando fala sobre um certo “cão sem plumas”. O ser da falta profunda, a quem algo rói profundamente, aquele que raspa com os dentes até o que não há.
E por isso também é o ser melancólico, o ser triste. A que a vida em bando está associada nos humanos senão à tristeza? Antes da fala, o luto. "O calor da putrefação” no qual nos aquecemos, para usar uma frase de Wedekind. Mas não é o luto o dado primeiro. É a tristeza.
Por isso, o ser humano é o ser para quem a vida se abre em duas possibilidades: a vida em bando ou o antidepressivo. No primeiro caso, descobrimos o riso como possibilidade secundária; no segundo, voltamos às árvores.
terça-feira, 20 de julho de 2010
Sobre um motivo de João Cabral

Um rato entrou em meu quarto de homem maduro e se pôs a roer. Os livros primeiro, e ali se deteve a tossir a poeira do tempo, a regurgitar uma ou outra passagem obscura. Aplicou com afinco seus dentes em algumas gravuras, depois na foto de minha filha, roeu-a por completo junto com a moldura e a escrivaninha. Desfez a memória de tardes vadias, a pouca mobília, os lençóis e travesseiros usados, o colchão, as paredes brancas e o assoalho onde sua fome roedora se sustentava. Tendo devorado tudo que valia e que não valia, passou a roer as coisas que ali faltavam. E neste prato principal demorou-se longamente.
quinta-feira, 18 de março de 2010
Uma estória de amor

Nada lembro de minha infância, exceto do cheiro doce e bruto do rio. Devo ter sido desalojado de suas margens durante uma dessas enchentes que retornavam a cidade ao seu útero de águas barrrentas, ao odor de folhas apodrecidas. Só consigo recordar de mim já como habitante daquele quintal espaçoso, com suas enormes mangueiras, jambeiros, jaqueiras em cujas copas os sabiás cantavam e os sanhaçus exibiam sua plumagem festiva. Órfão, ou abandonado, encontrei abrigo e alimentação entre as fruteiras daquele amplo pomar.
Ali me acomodei como pude sob os escombros de enormes máquinas destroçadas que ficaram para trás sem que ninguém viesse reivindicar a sua propriedade. Talvez imprestáveis para os outros. Abriguei-me ali como pude, comi as frutas que tinha à minha disposição, construí alguns túneis onde pudesse me proteger do acaso e a vida não era má.
Evitei apenas me aproximar da grande casa que se impunha no fundo do quintal. Impenetrável. Cerrada. Morta, com suas enormes janelas azuis, seu teto precisando de reparos e seus ruídos noturnos.
Uma madrugada, porém, fui acordado pelos gemidos do velho portão de ferro que se abria. Através dele um burrico passou, com seu passo miúdo e ritmado, e atrelado a este uma carroça carregando uma mulher, uma criança e alguma, pouca mobília. Havia também o carroceiro em meio àquela gente e objetos, mas tão logo ele se desembaraçou de um guarda-roupa pequeno, uma mesa, duas camas e algumas cadeiras, retirou-se levando consigo seu burro e a carroça. Cuidei de não ser percebido e por uns dois dias observei os novos habitantes acomodarem-se no casarão. Que águas os teriam trazido até ali?
No terceiro ou quarto dia fui descoberto em meu abrigo. O garoto foi quem primeiro me viu. Pareceu assustar-se muito com minha presença pois correu muito excitado para dentro da casa, para voltar logo em seguida acompanhado da mãe e esta de uma vassoura.
- Ali, debaixo do torno mecânico.
- Deixe-o, não há de fazer mal a você. Coitado, está magro.
Nunca havia percebido minha magreza e a fome que tinha. O que é estranho de se constatar. Passei o resto do dia examinando os meus ossos, andando um tanto aflito para frente e recuando, ansioso com aquela descoberta, com aquele diagnóstico. Fiquei assim outros tantos dias, olhando para o tempo com os meus olhos saltados, comendo uma ou outra manga, um ou outro jambo.
Numa manhã, ao acordar, descobri em frente a mim um prato com inhame e leite. Da janela da sua casa a mulher me olhava e sorriu quando aceitei a sua oferta. Comi com gosto o quitute e no meu íntimo agradeci uma bondade tão inesperada. A gentileza se repetiu com a regularidade do cuidado. Após algumas semanas, decidi me aproximar da casa e agradecer àquela mulher que eu via apenas à distância.
E era bela como nenhum sanhaçu, como não cantam os sabiás, nem lampejam os colibris. E fiquei paralisado ali, em frente à sua porta sem saber o que dizer. Recuei e voltei para o meu abrigo. Mas escutei ainda sua voz grave e terna dizer:
- Deixe-o, ele ainda está assustado. Mas a comida está lhe fazendo bem.
Após uma semana de tentativas frustradas finalmente consegui encarar minha benemérita. E que pernas, que coxas, que seios, meu Deus, que olhos tinha aquela mulher. Ela então estendeu a mão em minha direção. E eu estendi para ela a minha pinça num gesto de reconhecimento e de cortesia. Foi então que sua mão fez em torno de mim um movimento rápido, preciso e inesperado. Com a ponta de seus dedos graciosos prendeu firmemente minha carapaça, levou-me até uma pia, escovou-me, antes de me mergulhar numa panela. E a última coisa que escutei foi:
- Hoje teremos pirão de guaiamum no almoço!
- Ôba! A patola é minha!
Fui coberto por tomate, cebola, cebolinha, sal e alho. Tudo picadinho, com muita água e sal.
terça-feira, 16 de março de 2010
Adoniran e os Demônios da Garoa

Aprecio muitíssimo o sotaque paulistano do Samba de Adoniram Barbosa. Comprei a semana passada o CD Os Demônios da Garoa interpretam Adoniram Barbosa por uns poucos Reais. Excelente compra, não escuto outra coisa no carro. A Sinfonia Fantástica, de Berlioz, que também havia comprado na ocasião, regência de James Levine, foi pras picas.
Recomendo o disco com as músicas do velho Adoniran. Só senti falta daquela música da Inês...
Inês saiu, dizendo que ia
comprar pavio pro lampião.
Pode me esperar, Mané,
que eu já volto já.
.....................
Procurei no hospital e no xadrez,
andei a cidade inteira
e não encontrei Inês.
Voltei pra casa triste demais,
o que Inês me fez não se faz.
Pois no chão bem perto do fogão
encontrei um papel escrito assim:
Pode apagar o fogo, Mané,
Que eu não volto mais.
domingo, 14 de março de 2010
A Carta

Durante alguns meses mantive em meio ao caos de minha escrivaninha a tal carta. Em envelope azul, caligrafia bem cuidada, diariamente lia o nome Maria Luísa e, logo abaixo, como o mesmo esmero, o endereço onde eu morava. Rua Ourém tal, tal, tal. Ao lado um selo carimbado pela Agência Centro dos Correios no Recife e que custara 65 centavos. Decorridos alguns dias da chegada do envelope, perguntei aos vizinhos se eles conheciam alguém que correspondesse àquele nome sem sobrenome; alguém que houvesse habitado o meu apartamento antes de mim, talvez.
Morava naquele apartamento havia pouco mais de quatro anos. Deveria exisitir alguém na vizinhança cujo nome fosse ao menos próximo ao da destinatária, argumentou um dia a minha namorada. Não encontrei sequer uma Maria entre nós. O mais próximo que cheguei foi a descoberta de uma Maryanne Lima, que envidentemente não era a moça da carta. Os vizinhos antigos também não se recordaram de ninguém com aquele nome. Meu apartamento, segundo vim a saber, sempre fora alugado por solteirões. Nenhuma mulher.
- Mas os rapazes que moraram aí sempre foram mais simpáticos e bonitos que o senhor – revelou-me uma moradora antiga do Edifício A., ela própria não muito simpática e bela.
Minha namorada, de qualquer modo, discordou da vizinha. Considerei devolver ao correio aquela carta, mas percebi que isso seria inútil. O nome do remetente estava ilegível, estranhamente borrado, num envelope que, no mais, permanecia imaculado. Justifiquei desta forma, para mim próprio, o fato de não ter me livrado de uma correspondência que não me dizia respeito.
Ficou aquele pedaço de papel misturado a outros muitos que perambulam no meu escritório.
Mas não o perdi de vista.
Convenci-me, não sei bem como, ser a tal destinatária uma mulher jovem. E o simples fato de chegar a essa conclusão, algo como os rudimentos de uma identidade, já era um indício claro de que eu desenvolvera algum tipo de ligação com aquele envelope lacrado, endereçado ao apartamento que ocupava. Ao apartamento, não. A alguém, a uma mulher, talvez jovem, a Maria Luísa. Mas o erro que eu cometia era sintomático, algo já próximo a um artifício retórico, argumentou na ocasião minha namorada.
A partir do terceiro mês, passei a ter sonhos regulares com uma mulher que eu surpreendia em meu banheiro, ou lendo os livros desavergonhados que tenho e também leio, ou ainda abrindo a porta da geladeira, de onde pegava uma fruta. Realizava esses gestos comezinhos sempre usando uma de minhas camisetas, e mais nada, à vontade sempre, como eu nunca consegui estar em meu próprio lar. Em todas essas circunstâncias em que acreditava surpreendê-la, ela sempre me olhava com uma familiaridade desconcertante, sorria um sorriso bom e eu acordava. Nestas ocasiões, sempre me acometia a mesma constatação absurda:
- Eita! Esqueci de perguntar-lhe como ela é.
De fato, era-me impossível lembrar da aparência da tal mulher, embora não tivesse problema em recordar seus gestos, atitudes, jeito de caminhar e pegar coisas. Não posso dizer que a recorrência desses sonhos me perturbasse. Nem mesmo o tal lapso de curiosidade me incomodava muito. Não deixava de ser estranho, todavia, aquela sensação de estar me tornando íntimo de alguém que eu não conhecia, que eu sequer ousava enxergar nos meus sonhos.
Foi então que decidi abrir a carta.
Isso me levou ainda algumas semanas. Confesso que o que menos me incomodava era o crime que iria cometer, abrir correspondência alheia. De certo modo, Maria Luisa - pois quem mais poderia ser a mulher de meus sonhos? - tornara-se íntima, a trafegar pelo meu apartamento apenas de camiseta, a comer as maçãs, bananas que eu sonhava, a banhar-se nas águas que eu imaginava. Abri a carta muito lentamente, milímetros diários que finalmente expuseram uma única folha de papel, azul como o envelope.
A carta dizia:
“Querido,
Um homem deve ser rápido e corajoso em tudo na vida. Mesmo ao decidir abrir uma carta que aparentemente não lhe diz respeito, deve fazê-lo sem vacilar. Gosto muitíssimo de você, mas não posso pensar numa vida em comum com um homem que levará, como sei que você levará, semanas para realizar um desejo tão básico.
Adeus, seu cagão!”
Bem, eu levei meses para abrir.
E assinava: Fulana de Tal. E Fulana de Tal era o nome de minha namorada. Como naquela peça de Nelson Rodrigues, ela fugira com o amante paraguaio, que não havia entrado ainda na estória.
sábado, 13 de março de 2010
Oito deitado v. 2.0

Minha avó, já beirando os oitenta anos, rosto de maracujá de gaveta, olhos esbranquiçados pela idade e pela catarata, peito ampliado pelas terríveis crueldades de que era capaz, olhou-me, com os excelentes ouvidos que tinha, subir numa goiabeira e ali permanecer por toda a manhã.
Pediu notícias do mundo. Porém, eu nada disse.
Deixei que as coisas ao meu redor se mirassem em minha pele, retina, cabelos, nos calções que usava. Eu sequer contemplava. Confundia-me antes com as coisas ao meu redor. Vento vindo do rio, cheiro de mangue, grito de mulher, correria da meninada na Rua da Saúde, a poeira subindo na Rua General Mena Barreto, as folhas, os vários tons de amarelo dos frutos, o sol intenso, um ou outro passarinho, e coisinhas assim, em cujo emaranhado eu me escondia. Subi na goiabeira para ser folha, fruto e bico de passarinho.
Minha avó apenas conferia o rastro sonoro de minha existência semi-alada, a macaquear uma ou outra manobra segura entre os galhos da fruteira. Eu ainda não havia descoberto o silêncio.
Preferia dizer de mim, mas não para ela, pelos rastros que deixava no quintal: montículos róseos de sementes quase mastigadas, cascas, uns galhinhos muito verdes, que sem querer eu arrancava, e minha sombra que mudava de lugar e forma com as horas do dia. De mim, sabiam as galinhas, a manducar o que eu cuspia e a se proteger do sol dentro do enorme caranguejo que eu projetava sobre o barro vermelho.
Minha avó pediu-me novas das cores dos pássaros, que ela apenas ouvia, porém eu nada disse. Um que estava eu com o mundo.
- Aaaahhh! PESTE! Um dia estarás tão só que precisarás me inventar!
E o mundo transcorria em mim - como correm muitos rios em um rio, com seus sons e tons e cheiros -, indiferente à minha sina.
quinta-feira, 11 de março de 2010
Dúvida

- E agora revele-me com a mesma simplicidade: por que duas linhas e não mais?
- Porque o que realmente importa deve caber no bolso da camisa . Deve acomodar-se entre uma e outra batida do coração. Deve ter a forma apaixonada das paralelas que se orientam e se acalantam em aceno mútuo. Não importa quão distantes estejam.
quarta-feira, 10 de março de 2010
Glosa

- Em duas linhas, não mais. Em duas magras linhas, diga-me algo que mereça ser ouvido. Coisa certa, vento que alvoroce e que afague, clamor de muezim do alto de um minarete.
(Longa pausa)
- Nada me ocorre, além do silêncio. Pois em seu casulo tudo ainda aguarda ser dito. Mantras. Sussurros com longas asas de seda. Palavras mágicas feitas de cera em cujo oco o bronze do amor possa endurecer.
(E depois, ter entre as mãos essa jóia antiga e os golpes de martelo que a transformem)